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terça-feira, outubro 14, 2003

o prazer de estruturar as bases de uma nova teoria 

Escrevi durante cerca de 5 anos ao ritmo da pesquisa e da imaginação. Gostei do que fiz, sobretudo porque não me contive. Tanto quanto pude, mostrei nesta minha morada, a minha melhor face. Desde pequena soube que a escrita é um quarto onde falamos com as paredes. E eis que, desta conversa, e estou grata por isso, formulei uma teoria, que é como quem diz, dei a ver um caminho. Sei que a ponta de vaidade que me veste, é um vestido de baile que se apaga à meia noite. E que nenhum príncipe guardará a imagem deste espaço fabulatório. Sei, estou absolutamente certa que sei, que o que descobri nos gregos e baptizei com o nome de Teoria da Mobilização do Espaço pela Imagem - é uma pérola negra. Rara e virtuosa, como o meu melhor corpo. E a grinalda que me ruboresce é merecida. A fábula não se apaga, neste caso. A contribuição que pretendo dar permite, estou convencida disso, ver melhor. O efeito boomerang que instalei entre os gregos e os contemporâneos, é a chave deste cofre. A questão da técnica, um dos seus tesouros, do ponto de vista da vida, captura e morte do espaço. A mobiização óptica, a mobilização tipográfica, a mobilização a vapor, a mobilização eléctrica, a mobilização digital, entre as mais importantes, são contas do colar que está guardado na derrota da representação pela mobilização.
Aprendi com o meu pai que o louvor na própria boca mata ( ele dizia-o em latim) mas este pequeno texto é mais um desabafo sem vergonha e, talvez, um gesto de despedida.
Pela excessiva vaidade, se assim o sentirem, peço desculpa. Pela philia semeada, agradeço.
Continuo, solitariamente, pelas ruas e rios de paredes...

O sexo é ginástica, o desejo é inteligência 

" O sexo é ginástica, o desejo é inteligência". Ouvi esta frase, melhor, li-a nas legendas de um filme italiano que passou na televisão. Era um filme menor, destes que nada se guarda: nem o título, nem o nome de um actor, e muito menos do realizador... mas esta frase ficou, como uma forma de ser, estranha, viciosa, inteligente. Uma pérola divertida que quebra o colar da moral!
A dicotomia corpo e espírito, revê-se nesta divisão, à qual a moral cristã afecta: responsabilidade, vontade e prazer. O desejo, é a palavra passe de uma economia libidinal. Melhor, é um comando virtual, enquanto o sexo actualiza na carne. A alma, esta, dança, a compasso binário, quer com um quer como o outro.
A valsa soa, o rio passa, e o fantasma morre!

domingo, outubro 05, 2003

A dominação da representação da felicidade contra o seu movimento 

Na vida o que interessa é o gume afiado da experiência que separa o ovo da galinha, corte que se torna acto fundador da existência. Da existência da felicidade?
Se pairarmos sobre a Stoa poikilê ficamos a saber que 'a felicidade é um bom curso da vida' (Zenao de Cício). Ou seja se o nosso fim fôr obter felicidade é o mesmo que ser feliz. A homologia entre a razão e a natureza, é a mesma que se opera entre o conhece-te a ti mesmo e o conhece o todo. A aretê é apenas uma forma subtil desta conformidade.
Como se processa esta forma de felicidade, de um ponto de vista da imagem e do espaço?
Os Kathêconta dos estoicos, determinam a felicidade, numa possibilidade que decorre da nossa intimidade (cidadela interior) e vontade, subtraída da experiência exterior. A imagem que temos das coisas, tem como matriz a ordem que plasma a natureza e a natureza humana. É a Representação a vencer o Movimento (definitivamente associado a um aspecto negativo como podemos ver com o facto de se considerar o movimento da alma como uma anomalia que segue os impulsos e as paixões, p.e.). Trata-se da representação da ordem, da mesmidade, da apatheia e a areté, é a techne tou biou, capaz de produzir formas felizes de existência, num design de felicidade submetido à teoria da representação. Parte desta estratégia estoica, absorvida pelo cristianismo, terá formatado nesta dominacão todo o ocidente .

segunda-feira, setembro 29, 2003

A Lei e o Direito 

É curioso como as palavras de Hobbes apontam ainda um caminho possível: La loi est un lien, le droit une liberté et ce sont là choses diamétralement opposées (in Le Citoyen). Hoje, na desmesura escalar da técnica a Lei repõe o que lhe é essencial: uma relação escravo/senhor, e - eis o terror dos novos tempos - o Direito dificilmente reporá a protecção contra a intrusão arbitrária do soberano na escolha individual.
Esta constatação conduz a uma primeira questão: As teorias sobre a técnica fundam-se sobre uma obrigação ou sobre um direito? E a uma segunda questão: Como reflectir sobre a técnica sem mergulhar no espontaneismo moral? e ainda a uma terceira questão: como encontrar um traço distintivo entre o jurídco e o moral no que se refere à técnica?

segunda-feira, setembro 22, 2003

Orson Wells e Parménides 

Muitas vezes perante o espaço fílmico, somos compelidos a pensar na questão da realidade e da aparência. No imponente começo de Touch of evil, de Wells, é no entanto imediatamente clara a complementaridade entre ambas. Melhor, parece que o plano de sequência com que abre o filme, retoma magistralmente, a novidade parmenídea, no que se refere ao espaço (da imagem) e à imagem (do espaço), pelo facto de pela primeira vez o problema da origem daquele cosmos fronteiriço ser menos importante que o conhecimento, o logos, que emerge dos discursos que a fronteira pode produzir.
A fronteira é um ingrediente indispensável à viagem. Com Parménides, o caminho por onde vão os habilíssimos corcéis é o argumento dedutivo que o conduz à percepção da imensidão do espaço, além fronteira. Se partirmos da alegoria da viagem em Parménides e em Wells, obtemos a representação do cosmos como puro movimento do logos induzido pelo Direito e pela Justiça, pela Noite e pelo Dia, pelo Bem e pelo Mal, pelo Ser e não-Ser, entrevendo uma entrada para a constituição de uma teoria da mobilização geral do espaço pela imagem, capaz de mostrar o mundo como realidade e aparência.
No caso de Parménides, a noite e o dia, instituem a aletheia (a verdade e a realidade ordenada do cosmos). No caso de Wells, também mas, enquanto para o primeiro o espanto ao dar lugar à reflexão, nega a possibilidade de conhecer o não-ser, para o segundo a reflexão dá lugar ao espanto com que se mostra as aparências serem aparentemente.


Mas também isso aprenderás: como as aparências
têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo.
(…)
A complementaridade entre a realidade e a aparência.
Verdade e crença dos mortais
Realidade e a aparência
(…)
… um que é, que não é para não ser,
é caminho de confiança ( pois acompanha a realidade);
o outro que não é, que tem de não ser,
esse te indico ser caminho em tudo ignoto,
pois não poderás conhecer o não-ser não é possível, nem mostrá-lo…

Parece então que herdámos este espaço da imagem do ser, e a imagem deste espaço do não ser, em variações de infinita polifonia, a que o cinema, em primeira mão, veio prestar novo entendimento ontológico.


quarta-feira, setembro 17, 2003

Diálogo 

Esquilo
… florescendo frutifica na espiga da calamidade, dela se fazendo uma colheita de lágrimas.
Aristóteles
É evidente que, se nos fosse permitido a escolha desde o princípio, elegeríamos o não nascer.
Sófocles
Penso no meu destino tanto como no seu. Vejo claramente que todos quantos vivemos não somos senão fantasmas e sombras vãs...

Luz 

A luz ideal de um princípio universalista não coincide com a luz concreta da electricidade.

O efeito de ralo 

A função concêntrica e veloz do desaparecimento é impossível de suster sem perdas. Esta inevitabilidade é comparável à irradiação da dor. E pode ser uma tristeza demasiado grande..

crueldade 

A crueldade é uma arma de extensão variável que afecta tanto o espaço-da-vida como a imagem-da- morte: vida-e-morte, bailarinas em bicos de pé que coreografam a mobilização precária da existência num passo eterno...

sobre os intrusos 

Reconhecer o acto deletério de um intruso é uma desventura tão profunda como uma violação. Tão dolorosa como uma nevralgia persistente. A dor de tal desventura relembra uma fala de Cassandra, em Agamemnon: … a felicidade é como uma sombra que a desventura como uma esponja apaga num ápice. Violar, Apagar, Devassar um espaço-Outro, é um apagamento que merece ser punida.

Estas e outras questões colocam-se agora que o espaço é mobilizável quase sem constrangimentos e a carga subjéctil que cada um armazena é ameaçada constantemente por senhas capazes de abrir portas imprevistas.

É evidentemente uma questão ética que evoco, que remete para a tarefa platónica de criar a regra da passagem perfeita entre os espaços disponíveis no design do mundo, criando uma imagem ideal da cultura ocidental .

domingo, setembro 07, 2003

Vaivém 

A imagem, considerada como um atractor de espaço é um máquina de ataque. O espaço pintado exibe um eixo de acção em manifesta deslocação e mutação. As máquinas-olhos, máquinas-predadoras da experiência pintada, instalam um acto-formante humano. As máquinas-mãos-do-pintor instalam um acto-formante técnico. O estético fica por momentos suspenso. Esta pequena deriva pretende, contra-corrente, afirmar que as máquinas não se retiram apenas da natureza. Como o gesto do pintor não revela apenas o que é possível encontrar (como se fosse necessário legitimar o que não se constituísse pela norma). Esta corrente, reacção clara ao romantismo exacerbado e invasor do princípio do século XX, é estreita na sua aplicação revelando outra crença relativa à questão da virtualização e da actualização, que ficou presa no espelhamento aristotélico. Há outro solfejar, outra harmonia para abordar a questão da experiência, do ponto de vista de uma teoria da mobilização do espaço pela imagem. Na verdade o humano propõe outras máquinas que não pré-existem, contrariando o catálogo pré-formado de possibilidades técnicas. Retomando um post que intitulei de Queda no mundo, o que dita a novidade é o passo-em-falso que não funambula no complexo maquínico pré-existente, porque existem as que ascendem e caiem e que, a princípio, são máquinas apenas reconhecidas pelo seu impacto.

A instalação do choque é o acto-formante que se produz na relação de predação imagem/espaço, que emerge continuamente da antitética humano-técnico. A característica mais importante é o carácter de vaivém desta antitética: um grito em vaivém, como o do cinema de Antonioni; um corpo em vai-vem, como o da pintura de Bacon; uma palavra que desliza da poesia de Ramos Rosa?

Voltando ao princípio, é no vaivém que se concentra a energia atractora que apaga o lugar do primeiro espectador, aquele que é o informante. Deste apagamento é quase impossível fazer história, porque é a narração secreta da queda no mundo. É o segredo do devir informante do mundo.

quinta-feira, setembro 04, 2003

AInda espelhos 

A verdade é que, como Borges lembra, na Fauna dos Espelhos (citada por Baudrillard), houve um tempo em que “ o mundo dos espelhos e o mundo dos homens não estavam isolados um do outro. Eles eram, por outro lado, muito diferentes – nem os seres, nem as formas, nem as cores coincidiam. Os dois reinos, o dos espelhos e o humano, viviam em paz. Entrava-se e saia do espelhos”.

Gostei especialmente 

Gostei especialmente de um post recente de RAE . no post intitulado : embaciado.
O embaciamento, como prova do espectador imprescindível à máquina ecrânica-independentemente da sua humanidade, mostra que qualquer écran é uma imagem habitável pelo olhar, ou ? ainda mais certo ? pela percepção/apercepção. E acontece algo arrepiante, neste embaciar: a expectativa da máquina (neste caso especular) ultrapassa a ironia da manobra entre aquele dentro-e-fora. E isto porquê? Porque é exponencial de 3= fora-à-frente x dentro-à-frente x frente-à-frente = fora-e-dentro-à-frente. Esta operação, realmente cheia de mistério, parece mobilizar a relação entre espaço aparente e espaço inaparente, reenquadrando toda a potência da ousia grega, enquanto Ser, Substância, riqueza e propriedade, quer na realidade perceptiva quer na realidade catóptrica (Eco).

terça-feira, setembro 02, 2003

espaço-fora e espaço-dentro 

Face à nova imagem do mundo, o receio de olhar é o sinal da incompreensão da humanidade que ali se desenha. E enquanto muitos bradam o medo da técnica, do capitalismo desenfreado, da insuportável condição humana, o que é preciso é não fechar os olhos porque não há perigo que nos transformemos em sal.
Sabemos só que as possibilidades de habitabilidade do espaço exterior estão cada vez mais próximas às máquina do pensamento. O segredo está no corpo-mente. E o que quer que o humano invente, parece sempre, exceptuando a arte e a poesia, aproximar-se da sua forma de proceder, reenviando para o Conhece-te a ti mesmo. Seria por isso que Foucault se interessava tanto pelas Tecnologias do Eu? Como se estas pudessem desvendar a internalidade absoluta do agir humano? Creio que ele sabia que o movimento da humanidade é tiranizar: primeiro o espaço-fora (exterior à alma, e ao corpo), agora o espaço-dentro (integrado pelas tecnologias digitais).

A cidade 

Serres, a páginas tantas do Contrato Natural, afirma que o modelo da cidade invadiu todo o espaço. Na verdade, a cidade é um ponto de partida possível para uma teoria do espaço, tendo em conta duas hipóteses: a cidade como espaço ou o espaço como cidade. São, no entanto, duas perspectivas distintas. A importância da afirmação de Serres é apontar a possibilidade de reflectir sobre a razão tectónica da cidade enquanto espaço e a razão teológica do espaço enquanto cidade. Duas direcções de pensamento ficam ainda irremediavelmente traçadas: a real e a utópica. Uma certeza é ainda absoluta: uma não existe sem a outra. São máquinas interpenetrantes que se revelam elasticamente. Hoje, poder-se-ia mesmo dizer, na era das tecnologias digitais, que a separação rígida desenhada pela linha-entre o real e o utópico, se desvanece com a intervenção da máquina técnica actual capaz de tapar-os-poros, remendar, colocar-aqui-o-que-é-dali, destronando o topos fixo da relação espaço-tempo, por meio de uma expectativa eléctrico-magnética capaz de uma obra que catapulta a acção do homem para uma nova e densa ironia. E a cidade é - como casa privilegiada do homem - o laboratório por excelência dos novos tempos.

sábado, agosto 30, 2003

céu dos açores 


sexta-feira, agosto 29, 2003

Ainda sobre a imagem-programa 

Do direito e do viés do espaço humano, a questão da simetria e assimetria escancara-se na porta travessa do pensamento. Pensar duma ou doutra forma parece, por isso, ter sido um persistente motor, pelo menos para alguns, do que de mais humano existe no homem a ocidente e a oriente. Estas duas palavras de ordem da cultura são fechos de culturas estáticas e fechadas sobre si própria. Inominável a princípio, a porta do mundo era aberta pelo direito ou pelo viés, numa relação simétrica ou assimétrica, deixando aparecer a imagem. Num palpite fugazmente antropológico, a necessidade humana de abrigo e protecção específicos comandaram o aparecimento da imagem-programa (geometrias para uns, linhas para outros, …).
Discutir agora as culturas implica abrir o que foi fechado. Por exemplo, as mesmas imagens-programas – nucleares como o redondo ou o cubo – dos humanos de certas partes do continente africano diferem, em pretensão e sentido, dos humanos de certas partes do continente europeu. A resposta deve ser encontrada no design com que o espaço é mobilizado pela imagem em cada um dos casos, de forma a esclarecer se o programa é simétrico, assimétrico, e se o seu motor parte do direito ou do viés do espaço. Se a aceleração se repercute no círculo ou no polígono.
O Ocidente e o Oriente são apenas membranas do design destas condições, espelhando do direito e do viés a imagem mutante do mundo.
E a surpresa maior trouxe-a a técnica, ao mexer nesta membrana, esculpindo-a, contraindo-a e dilatando-a como uma bolha, síndrome das metamorfoses do espaço que nos reenviam para o fundo da imagem antes do Todo se partir, ou nos libertam nos Fragmentos que se exponenciam em progressão geométrica.
A imagem-programa sustenta a libertação ou o reenvio, ou mesmo a fusão e a tensão dos dois movimentos, sendo-o-mundo. Sem ela, o espaço do real não se constituía. E esta é a conclusão mais importante.

Compulsão teórica 

Compulsão de rodear o mundo num abraço demiúrgico. Compulsão de criar uma hipótese de leitura do mundo fundada no 'ostinato rigore' que Valery inventariou em Leonardo. Compulsão de produzir um espaço teórico próprio, tarefa exigente e plena de obrigações, que me aproxima, no entanto, da liberdade de um artesão.
Neste ensaio sobre a vida e a morte do espaço que venho desfiando, post por post, terei a desmesura de constituir na experiência fecundante da pesquisa uma nova forma de observar e compreender a imagem do mundo? O mesmo é dizer, um novo design do mundo?
Será querer de mais? E a resposta à minha angústia vem nas linhas indecidíveis deste fado que me espelha: amar de mais é loucura, amar de menos é maldade.
A economia do artesão, é a mesma do bricoleur, é o resguardo do amador, caminho que Barthes já tinha reconhecido. Ama-dor, é na verdade uma palavra de compulsão, e a fronteira da loucura é compatível com a da maldade. É lá que funambulo, porque se trata de uma fronteira suspensa, sem inocência, nem sempre visível – como só pode ser o misterioso e medonho risco do saber.

quinta-feira, agosto 28, 2003

Gerúndio 

Sem sentidos a vida fica sem sentido. Sem sentidos o corpo deixa de ser corpo e coisifica-se num sentido determinado da existência em que foi injustamente lançado, uma vez que, fazendo parte integrante da sua imagem, ela – a existência – não tem imagem para este corpo.
Durante muito tempo os teóricos interessaram-se pelo corpo sem órgãos, como uma prioridade herdada de Artaud. Mas parece-me bastante mais profícuo reflectir nos corpos sem sentidos herdados pela técnica. Os sentidos têm sido mobilizados pela/na técnica. Ou seja, existe uma aceleração motorizada na mobilização do espaço sensível pela/na imagem técnica, na desordenada tecnologização das práticas do ser.
Este aparente trocadilho, sentido X sentido, não tem fim que não seja a gerúndica função de ser-sendo no mundo.
É óbvio que adoro o gerúndio, porque lhe reconheço uma vitalidade filosófica extraordinária. É dotado de imanência e transcendência, e de uma estranha concreticidade especulativa.
Sem gerúndio a vida e a morte fica esvaziada de sentido.
Se o mundo não gira o ser não é.

tracejar 

Traço impecável, sempre igual, milimetricamente repetido e separado sobre a folha branca. Perfeição exterior que expia o sofrimento indefinidamente. Eu sou, às vezes, um Tracejador, traço-a-dor do mundo, e a consciência é tão forte como o orgasmo. Tão funda que se espalha em todos os actos que traço. E uma experiência reveberante, porque o nascer-e-morrer se espacializa no mundo-corpo que sou quando me traço.
Neste sentido, é de uma imagem-programa que se trata, cuja especificidade reside no imprimir negro sobre branco durante a queda no mundo...

A imagem-programa 

A imagem-programa é a que faz a história, em vez de ser feita por ela. Desta forma inverte o traço hegeleano da ideia de processo, ganhando maioridade entre as coisas do mundo.

quarta-feira, agosto 27, 2003

A queda no mundo 

Entre palavras, imagens e sons oscilam seres sem fundura que espreitam por aparecer. Parece assim que a emergência de uma ontologia do Resto se apresta a acorrentar-nos num corpo que soletra vãs epifanias daquilo que o mundo ainda não etiquetou. Há quem designe o não-etiquetado por virtual. Mas o nosso corpo que é o nosso mundo, ou o mundo que é o nosso corpo, é um guardião com profunda maldade, profunda bondade. Quer-nos tanto no bem como no mal. O mundo como visão de si termina em cada morte e refaz-se em cada nascimento. Como o burburinho dos amantes e dos guerreiros, o bem e o mal são o instável, o indecidível, o pharmakon que cura ou mata, que dá vida ou morte, que contrai ou dilata o Todo. E os seres sem fundura, na sua ontologia que oscila entre o eterno e o breve, aparecem e desaparecem ( e ninguém parece interessado no seu desaparecimento) não para concluir o Todo, mas para que observemos a pureza do nascimento e da morte, na operação quasi laboratorial de experimentar a vida experimentando a potência e a possibilidade de contrair e dilatar. São as dores do mundo. As dores de parto.
E nada é mais violento, fisicamente falando, do que parir.
Voltando aos seres que oscilam sem fundura: quando o pêndulo desafina a sua queda no mundo é o que de mais humano existe no homem. É o impacto que reconfigura o design do Todo. Os fragmentos dispersam-se. O novo instala-se. As poeiras ascendem até ao desaparecimento.
Poder-se-ia dizer que, no passo em falso, vai-se além do bem e do mal na dor do mundo.



Tratado de paz entre Deus e o Diabo através da carne 

"Le venin s'insinue dans les membres et aussitôt la rage se déchaîne/Par tout le corps: il faut que le crime s'ajoute au crime/ Ainsin sommes-nous satisfaits. Il n'y a qu'une victime pour le furibond,/ L'enemi immolé! Plaisir d'en disperser la chair aux vents,/ Et, taillé dans le vif, arrachée en mille lambeaux, / Transformée en autant de témoinages de mon tourment. / De la soustraire cette chair,/ A la trompette elle-même qui appelle à la réssurection." Leibniz, Confessio Philosophi, édition bilingue, Vrin, Paris, 1970.

domingo, agosto 24, 2003

Regresso de férias passadas na ilha de S.Miguel, arquipélago dos Açores. Atlântico Norte. 

Estive num sítio lindíssimo. Por isso me sinto tão livre de superlativizar a minha experiênica. Estive lá, porque estou vivo e, nesta condição, tombado na existência. No lugar que visitei, fui visitado pelas memórias da infância. Memórias vulcânicas, ferozes, telúricas. Percebí-me melhor. Ví-me no lugar certo porque mobilizei o espaço genuíno da minha imagem. E gostei, sem medo, do que ví. Lagoas, Caldeiras, pequenos vulcões e praias de areia preta delineadas pelo mar azul, a rocha negra e a vegetação verde. A minha imagem é a mobilização destas três cores: preto, azul e verde.
Sou a forma gerúndica do negror, dois riscos de azul e verde. Já não temo a vâ profecia de Antero : se uma fada me viesse fadar não saberia que lhe pedir. Eu agora sei. Como um corsário nemeseano que não fugiu do limiar da vida, em mim se escora, na aguada e refresco da vida navegada, a açoreanidade de que não me quero apartar. Mais do que uma ida para férias, tratou-se de um poderoso regresso a mim. Tratou-se de reconhecer os componentes transientes da mobilização do espaço na imagem que de mim faço.

O cagarro que solta o grito angustiante, a contreira que perfuma a estrada, a neblina que passa, sao coisas dos sentidos cujo registo se deve às condições do design de uma máquina singular: EU.

Nas saudades da terra, ensaiei uma imagem e, neste reencontro, sou outra

sábado, agosto 09, 2003

Blogue: nova relação autor/editor 

O espaço pressupõe uma experiência, seja ela qual for. Ele constroi-se à medida que o experimentamos. As artes performativas ensinam-nos isso, cada vez que fazemos qualquer coisa. Mas, e repegando um repto que lancei mais atrás aos bloguistas, a verdade é que a natureza do espaço blogue altera a natureza do espaço editorial. Altera-o assumidamente uma vez que a regra é a possibilidade do espaço editorial poder ser continuamente reformulado pelo autor. Muitos dirão que já encontrávamos tal coisa nos sites, etc. Mas não. Esta relação autor/espaço editorial, é uma novidade na sua semelhança com a experiência estética: o fazer, desfazer, refazer eterno que só certos objectos actualizam através do controlo do autor.

import/export  

A experiência que acabei de fazer teve uma enorme vantagem. Quando tentámos ensaiar palavras sobre a vida e a morte do espaço, regra geral pouco sabemos da essência do mesmo. Neste comenos, o que me interessa será apenas compreender experiencialmente como é que o espaço age em função da imagem. Digamos que encaro este assunto como uma missão (de pensar obsessivamente sobre o espaço e a imagem, porque são, esta é a pura da verdade, a essência do meu métier). E a verdade é que a relação espaço/imagem pode ser explicada por uma lógica de import/export, just in-just out, etc. Em suma, por uma lógica de mobilidade.
Eu explico : Primeiro round, numa aprendizagem absolutamente circunstancial, aprendi a importar um comando, um design de mobilizar espaços que tornam visíveis imagens. Mas a lógica é surpreendente. Através de um comando-linguagem html, tenho a senha de passagem da visibilidade, aqui, nesta imagem-blogue-teorias do céu, de uma imagem que se encontra noutro site. ( Tão miraculoso só a velocidade com que as imagens circulam no nosso pensamento. A nossa fábrica neuronal é fabulosa!) Este design, este movimento no espaço, possibilita uma imagem com uma natureza diferente da que constituía os blogues anteriores. Segundo round ( para reflectir apenas quando vier de férias): trouxe duas visibilidades, que por sua vez traziam dois espaços pintados como imagens que podem circular na net. E, estas imagens da pintura, mostram duas formas de pintar, dois olhares, duas formas absolutamente distintas de mobilizar o espaço para a experiência pintada. Terceiro round: Se inserir estas duas imagens importadas do espaço-net, e as confrontar, confronto o quê?
Deixo esta questão no ar. Que a resposta seja de quem a apanhar.



segunda experiência 

mais uma importação ( é muito demorado )


experiência de importação de imagem 

vou experimentar colocar uma imagem.

férias para reflectir sobre o facto-blogue 

Pois, como a maioria das pessoas que se cruzam nesta imagem blogue, vêm de variados e estriados espaços, proponho que aproveitem as férias para reflectir: O que é isto de blogar? é uma pergunta de somenos importância. Mas, por que o fazemos? a importância sobe um pouco. E, sobretudo, que mudança, instabilidade, cria na comunicação escrita, na tendência ensaísta dos portugueses, sublimemente representada por Eduardo Lourenço ( o único que parece ter dado verdadeiramente continuidade a esta característica tão nossa e a quem manifesto muita admiração).
existem mais questões que remetem para outros ditirambos: a questão da recepção massificada da escrita, mas da escrita como uma imagem animada. é uma novidade que conhecemos já lá vão alguns anos. Mas já teremos pensado sobre isso? Então não percamos esta oportunidade. E que se junte a esta voz outras vozes, o mesmo é dizer, outras perguntas. Boas férias a todos

links afectivos 

agora vou de férias. não vou poder blogar. mas devo dizer que lí uma polémica entre reflexos de azúl eléctrico e o Homem a dias sobre a existência de regras no âmbito desta escrita que aqui fazemos on-line. Devo dizer que fiquei um pouco dividida. Por uma lado concordo com o RAE, uma vez sinalizo a evidência da liberdade, por outro, também percebo que os blogues uma vez ón-line, assim deveriam ficar, sobretudo porque foram consultados, ou geraram perguntas e respostas. Entre les deux mon coeur balance. Prevejo a emergência de uma regra paradoxal que nem Brecht se teria lembrado... parce-me um assunto importante e nada desprezível... espero que, ao regressar do repouso do guerreiro, venha encontrar o travejamento da regra paradoxal. QUe poderá ser? Aceitam-se sugestões!

As imagens do grande canteiro do mundo 

Tenho por vezes o coração nas mãos e os meus dedos perfuram o mundo, para lá da cápsula anestesiante da realidade. Olhando em redor, parece que nada reconheço. Sei de onde saí, já não identifico com tanta ceteza a passagem, mas ignoro onde estou. Não é um exercício à Carroll, em que tudo se basearia na espacialidade das possibilidades de representações matemáticas e lógicas. É uma experiência experimentada de experimentar a experiência da passagem . Eu sinto-me planar com olhos e dedos feridos, esculpindo o mundo por dentro, dando-lhe a forma daquilo que só eu tenho, só a mim constitui, só eu sinto, vejo, toco. Não é a superação da dor, das lágrimas, da fome do derrame insuportável do mundo, nem a superfície da banalidade poética a que Baudelaire dava voz. É a imagem, uma certa imagem, a minha imagem, da pintura, da poesia, do cinema, do ensaio, seja o que for que me colhe , seja o que for que me rega, seja o que for que nunca será antigo nem moderno e só terá a idade do sangue metafórico. A constituição da metáfora, os seus atributos, permitirão uma datação, mas não dizer que Poe é mais antigo que Ramos Rosa. Será apenas uma flor sublime a funambular no grande canteiro do mundo. São imagens com raízes móveis, que fintam más mãos, e tentam apenas deixar-se apanhar pelas mão sujas de vida. As únicas mãos que acedem à passagem.

terça-feira, agosto 05, 2003

Fogo 

Ontem, ao ver o telejornal, fiquei presa à imagem de uma autarca da parte apagada do país, que explicava o objecto incendiário que tinha nas mãos. entremeava o esclarecimento com uma expressão que se repetia : `´E só uma suposição...'. O crime, no entanto, que ela suponha no discurso, era uma evidência malvada na sua expressão, e, sobretudo, na emoção e embargo de lágrimas que tornou evidente o que ela via naquele objecto incendiário, e como ela olhava, através do écran, o povo do seu país. Eu, que raramente choro, deixei-me ir e prolonguei o pranto que ela, por pudor, susteve... Sei que respiramos em uníssono a perda, a dor, e pego de novo nas palavras de Char: "Nous devons surmonter notre rage et notre dégout, nous devons les faire partager, afin d'élever et d'élargir notre action comme notre morale"
Como é possível que nenhuma política ( à esquerda ou à direita, que importa agora?) se prepare, mas se adquiram aviões de guerra, se façam estádios de futebol, se usem os nossos pesados impostos para tornar visível a parte do país que não é o chão que pisamos?
Como é possível que os portugueses nunca tenham verdadeiramente nenhuma palavra a dizer?
Quando é que este povo perdeu o vínculo político com a terra?
lembro-me de uma peça que ví, então em S. Miguel, Garcia Lorca pelo Teuc, no fim dos anos 60. Um actor dizia, feroz no seu olhar, para mim: "Meu nome é terra, está escrito na palma da minha mão". Ainda conservo o arrepio, a vontade súbita de correr para a casa de banho, a imagem da sua caa iluminada contra o negro dos panos do teatro...
e apetece-me parafrasear o Cidadão Kohlhaas, de Kleist: com governos que não defendem a sua própria terra não podemos viver!

Keats e Char 

Se o poeta é o ser menos poético que existe (Keats), a sua poesia é forçada a afastar-se dentro do poema. é um movimento in-humano, só possível de encarnar pelo sublime. E o sublime parece contido nestas palavras de Keats " ... quando, vagaroso, o pensamento ainda hesita e se demora". Este momento que, para Keats, era coisa da ascensão , lembremo-nos que ele afirmava : " A minha imaginação é um Mosteiro e eu sou o seu Monge", em Char é
a queda no real. " Nous devons surmonter notre rage et notre dégout, nous devons les faire partager, afin d'élever et d'élargir notre action comme notre morale" ( R. Char) Sempre li Char com inquietação. Ele fez-me ver que a consciência é amarga como limão e que as verdadeiras intuições são distraídas. E o Poeta Keats ou o Poeta Char, desliza neste gume afiado que divide a nossa estranha forma de vida: dois espaços de inclusão/exclusão poética. Também Char se interesspo pelo imaginário: " Toute respiration propose un régne: jusqu'à ce qui soit rempli le detin de cette monotype qui pleurte, s'obstine et se dégage pour se briser dans l'nfini, hure de l'imaginaire" Parece que Keats lhe responde assim:" Como eu queria partir para longe, pereseguir o teu voo/, não sobre o carro de Baco e os seus leopardos,/mas com as asas invisíveis da poesia/quando, vagaroso, o pensamento ainda hesita e se demora." O vai-vem das formas é-lhe interno. Mas em Char, reconhecemos a recusa da evasão, porque se interroga ironicamente quanto às depressões misteriosas e intuições absuras. A sua poesia é contra a ascensão furiosa do poema: " Si l'homme parfois ne fermait pas souverainement les yeux, il finirait pas ne plus voiir ce qui vaut être regardé." Keats, pelo contrátrio, terá escrito:" Há entre mim e Byron esta grande diferença: ele descreve o que vê , eu descrevo o que imagino." Seria possível nunca mais terminar este tête `tête entre Keats e Char. entre eles vageueiam, sobretudo, não as imagens do real, mas palavras que mobilizam uma determinada imagem da poesia. Pelo menos foi isso que aqui me interessou sublinhar.
Decidi ficar com Char. Talvez por ter sido um dos meus poetas preferidos dos meus 20 anos ( e na minha geração todos conheciam aquela frase, cito de memória, 'e não me digam que ter 20 anos é a ter a melhor idade de um homem' (lido em Aden-Arábia, Paul Nizan, creio...). Os românticos com que emoldurei a minha adolescência começavam a enfeitar as estantes e a constituir-se em grandes companheiros. Cada livro, cada estrada...Como disse o João César Monteiro no seu último filme, ' os livros servem para fazer companhia'.
Voltando a Char: "Il ya deux âges pou le poète: l'âge durant lequel la poésie, à tous égards, le maltraite, et celui où elle se laisse follement embrasser. Mais aucun n'est entièrement définit. Et le second n'est pas souverain."

abelhas 

Gosto de citar de memória, estas palavras de Eugénio de Andrade: "Vê-se bem que já não sabes respirar, que terás de aprender com as abelhas". Até pode não ser bem assim, mas é assim que me lembro do poeta a dizer poesia no foyer da Cornucópia. Muito branco, e muito irritado com o surdo palrar de alguns convivas. Mas, houve um momento que a irritação se foi, os seu olhos pousaram nos meus, Por mero acaso, enqunto começava a dizer: É de um rio que eu falo...".
É estranho ter-me lembrado daquele momento. Lembro-me dele como uma imagem que está guardada dentro de mim e a mais ninguém pertença. aquele toque de olhos fez-me tremer, como quando fui ouvir o Jorge Luis Borges na Universidade de Letras. Estava cheio. Lembro-me perfeitamente que fui de bicicleta. Vi-o mais do que o ouvi. E qualquer coisa, uma profecia talvez, se repetiu. Na lonjura de todo o anfiteatro 1, os nossos olhos tocaram-se na sua tactilidade cega, no momento em que ele dizia, que a única coisa de que tinha verdadeiramente pena e que o deixava realmente triste, é nunca ter mostrado aos pais que era feliz. Depois lembrei-me destas palavras de um livro dele. "... tive medo, e não abri os olhos".
E tudo parece fazer sentido, porque só eu posso procurar a imagem que ficou comigo, dentro de mim, própria e intocável.
A imagem possível são os nossos olhares a bailar entre roseirais...

terra queimada 

Lí nalguns blogues como Abrupto, Reflexos de Azul Eléctrico, palavras de apreensão, tristeza, crítica por causa desta terra queimada que pouco a pouco tem devorado Portugal. E acho que também é para isto que serve encontrarmo-nos aqui: para tomar posições que contraiam solidariedades, sugestões, soluções, mas que não nos deixem cruzar os braços. É preciso sujar as mãos e apagar o fogo que se irá atear no próximo ano, como em todos os verões deste país.

segunda-feira, agosto 04, 2003

A relação espaço/imagem 

Todo o meu interesse tem convergido nos últimos quatro anos nessa relação. Tornou-se obsessivo trabalhar sobre ela, experimentá-la através da performance ( desde o teatro, o cinema, a pintura, a escrita, a casa). O fazer tem esclarecido muito a carga mobilizadora desta relação. Existem dois planos ( no âmbito da geometria podiam ser planos secantes) que criam uma dimensão de intersecção, a dimensão que procuro.
Desde o agrimensor ao mágico, que o espaço e a imagem adquiriram a maior pertinência no que é próprio do humano. Digo mesmo que esta é a relação humana por natureza. Sem esta relação pouca coisa nos distinguia da animalidade ( que também é nossa). Eu explico: Que saibamos, só o homem cria imagens. Wallon insistiu que pensamos por formas reiterando 2000 anos de reflexão sobre o assunto. O imprint mental, como diriam os cognitivistas, realça a leitura derrideana de Timeu, sobretudo no que se refere à questão da fixação e do suporte. O processo mente-corpo ( veja-se Popper) é como uma superfície que reflecte como um espelho e imprime como uma película. O homem conviveu sempre com esse aparelho de mediação de imagens, que era ele próprio. Reproduzí-lo, no espaço que lhe era exterior ( como se assim contribuísse para transformar este no espaço em humanidade), era um desafio mais que natural. No meu blogue de 1 de agosto, intitulado ensaiar o mundo, afirmo que tudo leva crer que acedemos ao mundo pela imagem, etc. e que a relação entre fixação, suporte e mostra é fundamental para compreender o design da relação espaço/imagem. Trata-se obviamente de mobilização do espaço pela imagem, possibilidade teórica de derrotar a hegemonia da teoria da representação.

domingo, agosto 03, 2003

O jardim de rosas dos grandes amigos do Mundo 

Deve ter-se sempre o cuidado de não hostilizar as formas interpretativas - a Gestalt da compreensão, Ao perceber que umas são dominantes, outras dominadas, e que esta condição de vida do conhecimento gera uma guerra, por querer, devemos nela tomar partido. Assim a experiência do mundo é dominada pelas forma dominantes. A experiência resistente do mundo é dominada por formas de luta e resistência. Infelizmente parece que nunca nos conseguimos ver livre desta díade. Só a poesia se desfaz no seu manto imparável dela. E é livre e Eu adoro a liberdade. A alegria que dela decorre. O jardim de rosas que ela planta no céu perfuma o coração dos que prefiro. Dos que acreditam, como Rimbaud, que nada deve durar! Com estes, suspeito sempre, converso sempre nos blogues que leio, nos livros, nos filmes, nos sonhos, nos jardins que frequento, na ‘estranha forma de vida’ que vivo. São os meus companheiros de estrada, pequenos amores, pequenos deuses, grandes amigos no Mundo.

sábado, agosto 02, 2003

metáfora 

O mergulho na Natureza Naturans é homólogo, na filmografia deste realizador de cinema, à queda na Natureza Humana. Por um momento, as condições plasmam-se e o resto desaparece.
Por isso, em Dolls, da rarefeita mostra urbana avançamos para a exuberante cor das flores, das pétalas vermelhas das árvores, das montanhas de verde e vermelho, do mar prateado que tudo parece reflectir sobre o desespero humano e, finalmente, a neve, que tudo contém : aparição, desaparição; líquido, gazoso, sólido, estratificações e camadas de pedra; mole, duro, Queda, fixação e ascensão; superfície especular onde - como no écran - o mundo escorrega perante os nossos olhos. A neve sempre foi, e será uma bela metáfora porque guarda toda a potência da predicação aristotélica que, na sua essência, instruí a tensão e a fusão da palavra com a imagem.
No caso do filme de Kitano, o jogo metafórico constroi-se propositadamente sobre o silêncio da palavra. Sobre o silêncio da humanidade, ao mesmo tempo que a sua imagem parece ter cada vez mais voz.
A voz embargada pelas lágrimas. A voz que não soa, numa humanidade lavada em lágrimas. Águas inteiras de mundo vindas da neve e do gelo, vindas do branco que recobre todas as cores, todas as formas e alisa a medonhidade do espaço. Vindas do intempestivo lavar de lágrimas de Nietzsche!

lembrando kitano e lágrimas de Nietzsche 

Sábado, Agosto 02, 2003
Lembrando Kitano outra vez
O mergulho na Natureza Naturans é homólogo, na filmografia deste realizador de cinema, à queda na Natureza Humana. Por um momento, as condições plasmam-se e o resto desaparece.
Por isso, em Dolls, da rarefeita mostra urbana avançamos para a exuberante cor das flores, das pétalas vermelhas das árvores, das montanhas de verde e vermelho, do mar prateado que tudo parece reflectir sobre o desespero humano e, finalmente, a neve, que tudo contém : aparição, desaparição; líquido, gazoso, sólido, estratificações e camadas de pedra; mole, duro, Queda, fixação e ascensão; superfície especular onde - como no écran - o mundo escorrega perante os nossos olhos. A neve sempre foi, e será uma bela metáfora porque guarda toda a potência da predicação aristotélica que, na sua essência, instruí a tensão e a fusão da palavra com a imagem.
No caso do filme de Kitano, o jogo metafórico constroi-se propositadamente sobre o silêncio da palavra. Sobre o silêncio da humanidade, ao mesmo tempo que a sua imagem parece ter cada vez mais voz.
A voz embargada pelas lágrimas. A voz que não soa, numa humanidade lavada em lágrimas. Águas inteiras de mundo vindas da neve e do gelo, vindas do branco que recobre todas as cores, todas as formas e alisa a medonhidade do espaço. Vindas do intempestivo lavar de lágrimas de Nietzsche!

// posted by teorias @ 9:32 AM

Sonhei com Foucault e Dostoievsky 

Os sonhos são um espaço peculiar: diria que se encontra entre a vida e a morte. É o limiar do real: o que vai e o que vem . Para onde ou de onde, melhor será termos a humildade de dizer que não sabemos. Gerações de homens especiais tentaram definír este imprint de acontecimentos que recordamos ( parece ser esta a operação, mas quem sabe não se trata de outra coisa?). Quem sabe se o corpo durante o sono transcende os limites da carne e se ligue - numa interfacialidade qualquer, mental, energética, o que quer que seja, mas suspeito que numa interfacialidade Leibnizeana, infinitamente pequena, hoje dita quântica - com o mundo.
Então o sono seria o lugar de que falam os oráculos, os orientais que se mantêm com dois mil anos, os simples de espírito que não aderiram ao cristianismo. O sono pode se um dos espaços vencidos na saga do Espaço ( não afirmo, é apenas uma hipótese). Esta hipótese explicaria muito do universo de Garcia Marques, em Cem anos de Solidão, ou de William Faulkner, em O som e a fúria.
Seja como for, não sabemos de onde vem e para onde vai.
Recentemente sonhei que conversava com Foucault e revelávamos um ao outro a nossa fascinação pela última cena de O jogador. (nãotinha qualquer referência que ele tivesse lido este livro, no entanto, depois deste sonho, fiquei absolutamente convencida que o fez). É o som que evoca a imagem final do livro. Conto-a dememória: a velha senhora que avança vagarosamente, arrastando os pés e o panos do vestido no soalho do corredor, num som que vai aumentando à medida que se aproxima do quarto onde ele se encontra. Ela retorna da morte para apagá-lo da vida. O medo, o remorso, a vingança paralisam o fim do livro. Nunca o espaço dehors de que Foucault falou, me pareceu tão evidente.
Uma cena absolutamente genial que me fez passar uma noite inteira com Foucault. foi, não tenho dúvida, o encontro mais importante da minha vida.
Não sendo mística, apreciando o processo racional da análise, tendo em conta o valo do mito da humanidade envolvido nestas coisas da vida e da morte, como afirmar então a sua existência? COmo negar então a sua existência?
Por isso, como não consigo lembrar-me do nome do lugar em que nos encontramos, fico por aqui, esperando encontrá-lo mais vezes.

Gostar de ideias é uma paixão alegre 

Passear no meio de ideias é como ser um flaneur, um Baudelaire de Benjamin. Encontrámos pares e ímpares de vida. Fazemos estradas e catedrais como as que Saint Éxupéry via no céu dos seus voos nocturnos. Um espaço que se inscrevia no céu e que ele conseguia ler. Porque se mostrava para ele? Porque estava fixado numa linguagem que ele conhecia? Ou porque o céu era a rosa onde ele procurava todos os sinais, quer da sua infância, do seu amor, do seu jardim? Sibelius ou Gertrud Stein? Ou daquele cantor francês que cantava Rosa rosas, rosarum? Ainda alguém se lembra dele? Era uma homem que passeava nas palavras de Mallarmé, conferindo-lhes o espaço do som.
Dúvida não há que há que a maravilha da ideia é que parece nunca morrer em si. Parece tentacularmente ligada a todas as ideias. Metamorfoseantemente capaz em transformar-se noutra qualquer.
Por tudo isso, e por outras coisas que ainda não descobri, e morrerei sem descobrir com a certeza de que outros virão para descobrir ( com o mesmo vício que eu, portanto imeus irmãos) e que muitos já descobriram mas que eu não sei ainda. (hoje estou muito musical. agora lembrei-me do José Mário Branco a cantar: porquê não sei ainda, não sei ainda), por tudo isso saúdo os que gostam de ideias, de dormir com elas, acordar com elas, e lutar com elas e criá-las.
Por isso, gostar de ideias é uma paixão alegre. Criá-las é coisa constante que o trabalho e o perfeccionismo comanda. Nada dificulta o seu nascimento. e, por ser um nascimento, a sua dor é alegre. em que qualquer sítio, qualquer momento, em quaisquer condições, o trabalho das ideias surge em liberdade. temos que estar disponíveis e não esperar a hora precisa de nos sentarmos à frente do computador ( mais uma canção: quem sabe faz a hora não espera acontecer), ou desculparmos a não concretização com as mulheres, maridos, filhos... é bom que não nos incomodem, é certo, mas, como se diz em gíria popular, ou os temos ou não os temos! Voltando a Foucault, que adoraria ter a honra de ser irmã, "é o labor paciente que dá forma à impaciência da liberdade".

o vício dos que sofrem de ideia-dependência 

Lembro-me que há muitos anos, alguém que me queria confrontar, me atacava com esta frase insólita: és viciada em pensar! Aquilo que para ele era um violento insulto, era recebido por mim como um incrível elogio. A invectiva retornou agora, neste momento em que blogar me satisfaz tanto. Tenho a sensação que ele talvez tivesse razão. Participar neste diário on-line, saber que eventualmente serei lido, que o curso das minhas ideias não fica fechado nas minhas quatro paredes,é como plantar margaridas e rosas para florirem numa qualquer primavera. e encontrar outrass flores, para montar o enorme jardim de ideias onde os viciados como eu se podem encontrar.
Vou discutir se este tipo de dependência é menos grave que outras, porque tenho uma posição relativamente precisa quanto às questões da circulação dos produtos que geram a dependência - normalmente conhecidos por DROGA. Primeiro esta circulação faz-se à custa de mercadorias que contêm dois sinais de satisfação: colmatam a necessidade dos negociantes e as necessidades dos consumidores. Aparentemente um bom negócio. Segundo, este negócio também infringe enormes baixas nos recursos que mobiliza: neste caso homens, mulheres e crianças. Por isso o mercado e a economia são tendenciosos quando imperam nas soluções da humanidade ( e a afirmação aplica-se tanto aos barões da droga como aos homens de estado).
De facto a dependêncnia e a adição encontram-se já nas mercadorias que contém a volatilidade e a fantasmagoria de que falava Marx, a dissolução da sociedade de que apreensivamente se queixava Weber, na sua anomia geral. Os produtos parecem desaparecer completamente, os fantasmas são todos captados, a sobrevivência humana dissolvida como se tivesse a ser consumida por ácido sulfúrico. Este tipo de dependência enoja-me.
Relativamente à ideia-dependência, sendo objectivo e não complacente, é de um mal menor que se trata: Quando a guerra se instala ( e considero que a economia da droga é uma das mais ferozes guerras que assolaram a humanidade) são os livros que são queimados, são as ideias que têm de entrar na clandestinidade. Assim, nos momentos de crise, sua procura é a marca de uma adição politicamente organizada. Os livros, os écrans, e daqui a dias o sangue, as pedras e as ervinhas , como dizia a lírica maravilhosa de Camóes, são um produto poderoso: invadem o mundo, captam o mundo, mostram o mundo. Nesta mostra procuramos irmãos, ou inimigos. No geral, os ideia-dependentes, têm pouco tempo e vontade para a indiferença. Os indiferentes, os que sorvem tudo sem filtro, têm uma dependência perigosa e parecida aos tóxico-dependentes, mas, mesmo assim, sejamos terra-a-terra, muito menos nociva.
Pensemos nos inúmeros problemas do mundo, desde a Conferência do Rio aà conferência do Cairo, é pela sobrevivência egoísta dos recursos da terra e do homem, que passam as discussões sobre a solução do mundo. Porque é que os americanos, senhores de todas as soluçõoes, teimam em dar cabo da nação árabe, em vez de se dedicarem a dar cabo dos barões da droga que infectam crianças, mulheres e homens de todo o mundo? Será Porquê? Entenda-se o sarcasmo na minha interpelação. Os Bush todos deste mundo deixam a mais vil forma de terrorismo espalhar-se como um vírus no mundo, o mais profundo terrorismo, que se entranha no corpo da humanidade,sem outro fim que o de enriquecer uma oligarquia mafiosa; enquanto isso arranca com uma cruzada, que parece nunca mais terminar, contra os povos árabes para exterminar os que se revoltam contra o seu controlo e distribuir rebuçados de petróleo aos que se subjugarem. Senhor , o ocidente quer fazer deste Médio Oriente um escravo. Ma é difícil apagar a memória dos mais antigos Senhores do Mundo. Como podendo terminar esta dependência e este vício de poder, não será justo que os Antigos Senhores do Mundo ARMEM as suas ideias e vão à luta? Uma briga comprada tem de ser travada, nem que seja à bengalada, já o dizia o nosso Ramalho Ortigão!
Finalmente, o terrorismo será um vício?
Ser escravo da droga, é uma reçlação de dependência semelhante ao sê-lo de uma ideia?
Ou, as ideias são um dos poucos motores do mundo que permitem anular esta dependência Senhor-escravo, e entrar no caminho da philia que Foucault tão sabiamente procurava analisar nos últimos anos da vida?

sexta-feira, agosto 01, 2003

ensaiar o mundo 

O ensaismo é a forma mais particular que conheço de ensaiar o mundo. As formas são várias. Desde uma linha de Borges a uma linha de Rembrand está guardado um mundo que acedemos e o outro que não teve gesto e que nunca acedemos. Mas será que, na verdade, não teve gesto ou será que significa que ao ensaiar o mundo, o ensaísta ensaia UM mundo? O seu mundo? Liberto na subjectividade e ironia do ensaista, o mundo acede à fabulosa unidade. É a perigosa ciência de ver, de que Álvaro Campos dava notícia. O perigo é que cada ensaio aparelha o mundo e toma partido guerreiramente. Um ensaio é um guerreiro que cavalga sobre a carne que come. MAs há um lado do ensaio que corresponde ao que fica por dizer, o que fica por ler, à espera doutro momento, doutras mãos para o escrever. Doutros olhos para o ler. A escrita é coisa de milhares de mãos que criptalizam o mundo. O lado-sombra e o lado-luz erotizam a ascensão, queda e suspensão dos sinais, que desde que o mundo é mundo são o que nos reúne. Sempre houve trilhas em pistas de dejectos e alterações do caminho que se constituíam a par e passo com a experiência, actualizando uma primeira fase da fixação, do suporte e da mostra. Carga genética ou adquirida, o facto é que estes três componentes passam a ligar-se num processo de reconhecimento. E, finalmente, deixam de acontecer espontaneamente para tomarem lugar na cena do mundo intencionalmente através de um design de pedrinhas, barros, riscos, cores. Há pelo menos três perguntas a fazer: Como distinguir tipos de fixação? Porque surgem diferentes suportes? Como aceder ao que não é mostrado? Urge desembaraçar estas perguntas de dois defeitos: uma excessiva antropologização dos problemas e a subjugação à teoria da representação.
Resta-me a frieza consoladora de que mesmo o que é mostrado é de difícil acesso. Entre o que é mostrado e o que não é mostrado, respira o arco de Malarmé, o atopismo de Barthes ou, por outras palavras, o que ainda não tem lugar, e que vinha sendo indicado, como ferida aberta do mundo cujo sangue de alquimia, feitiços e outros desfavorecimentos da Razão, , chamam a atenção para um mundo negado ou vencido. Constatação que reafiram a profecia de NIetzsche relativamente ao conteúdo ferozmente negado que jaz morto e arrefece em qualque afirmação. A verdade é que não jaz morto, nem arrefece, longe de qualquer sebastianismo, é feroz, e espreita nass entrelinhas de Borges e Rimbaud. Como jaze, potente, entre Hércules, carregando os Céus ( templo de Zeus, em Olímpia, 460 ac), e a minuciosa visão da natureza feita por Durer (Ervas, Estudo em Aguarela).
Tudo leva a crer que acedemos ao mundo pela imagem, que é nela que se guardam todos os sinais, os que têm leitura e os que não têm leitura , os que ensaiam o mundo e os que o mundo ensaia. Neste sentido, e para rematar por aqui, há uma gravura florentina do anos de 1465, aproximadamente, que revela, enquanto imagem, o tipo de fixação, suporte e mostra. Merecia por isso estudo aprofundado.

Mas há um alerta a fazer. Há um aviso latente sobre o perigo que jaze como uma mola em tensão, pronta a saltar. Porque, o que fica por dizer, mostrar ou ler resulta, regra geral, do pior dos males: o autoritarismo, por isso a importância de gestos maiores como o traçado no filme de Alain Resnais sobre Auchwitz, contra-lugar que não se apaga para mostrar através do que ali ficou inscrito que tem que ser desligado (não encontra a palavra justa) . Ou nas linhas de um poema como este: "Olhos de transeuntes da loucura: em vós desaguam os restantes olhares" Paul Celan.

O que quero dizer, é que há algures um único registo a que se acede, mesmo que não saibamos ainda qual é o suporte ou a forma de fixação. Serres falava nas pedras... eu falo do mundo!

NOTA não sei colocar imagens, pedindo por isso desculpa de não ter mostrado as referências citadas, o que seria importante nesta brevíssima sensação teórica e fugidio ensaio.

quinta-feira, julho 31, 2003

As viagens velozes conduzem-me sempre ao écran. por onde quer que olho, do interior do meu carro, todo o real é ecranizado. a graça é que eu, o carro e o exterior somos a máquina que fabrica o real daquele momento. Esta sensação teórica levou-me a distinguir o realizador do cineasta que conta histórias através de uma máquina fílmica. não sendo impossível juntar as duas coisas, como já o fizeram Mizogouchi, Wells, Renois, Lang, para citar alguns dos maiores, a verdade é que já fizeram. a verdade é que se começassem hoje não fariam da mesma forma, porque o olhar hoje é dotado de outras configurações. assim, como Delacroix dizia que aguentava o sofrimento, sofrendo, até o sofrimento se fartar, o realizador aguenta com a realidade, realizando, até a realização do espaço se fartar. a inteligência está em identificar o momento antitético do fastio e imprimir o espaço realizado...

quarta-feira, julho 30, 2003

O olhar da humanidade é o seu espaço. As imagens, o seu mais extraordinário receptáculo. Nada tendo a ver com a visão. O aparecimento das imagens depende da prontidão da sua fábrica, do seu destino ou catálogo onde são inseridas. Sempre assim foi. Imagens e palavras foram estabelecendo diferentes correspondências, coincidências ou afastamentos. Em diferentes medidas , proporções e visibilidades. Também sempre existiram aquelas imagens que não encontraram etiquetas preparadas: imagens em fuga, imagens derrotadas, imagens apagadas, imagens sem palavras. Ou palavras sem imagem: a palavra Imagem, ao contrário da maioria das palavras, não tem imagem que não seja a da pura ortografia. Concluímos que é rasantemente diminuto o seu poder no mundo de imagens. Como encontrar então a imagem da palavra imagem liberta da grafia capaz de restituir o olhar da humanidade?
Ainda sobre Dolls-Bonecos/ de Kitano. A enunciação do título suspende todo o filme, desde aquele lindíssima imagem das florinhas brancas das árvores que ladeavam o caminho por onde se deslocavam ( ou esvoaçavam como as folhas, as borboletas e ao anjos) os mendigos-atados. Estes amantes-ligados ( na voragem de não perder o amor = essência da ligação ) deslocam-se sob o olhar de surpresa, comiseração ou escárnio daquela humanidade. O fio que arrastam e que ao mesmo tempo que os liga, desliga da humanidade, é incompreensível para esta mesma humanidade. Os que se perderam do amor, ficam presos ao mundo por fios emaranhados e invisíveis, subjugados por diversos mariotenistas.
Aqui, existem dois tipos de liberdade: A liberdade de se condenar ao amor, A liberdade de se condenar ao desamor. Dois tipos de consequência: a subjugação dos amantes a si próprios; a subjugação dos amantes aos outros. Ao procurar através das palavras o momento passado que guarda a essência perdida, os que se perderam do amor não têm salvação e condenam a ligação à morte; os que não remontam à palavra, porque não a reconhecem mais, como não reconhecem o objecto do seu amor ( e da sua perdição) e estão apenas ligados a quem renuncia à palavra porque reconhece o objecto da sua perdição ( e do seu amor), condenam a ligação à vida eterna mesmo que devam morrer por isso. Este traço sublime é mobiizado na imagem fílmica de Kitano.
Finalmente, há ainda outro olhar de não redenção, voltado para as infinitas e antigas ligações de senhor/escravo do próprio Oriente, numa política disseminada e tensa incapaz de se salvar na imagem de um anjo ocidental … o anjo que ascende não é mais forte que o anjo que cai… e a tensão parece igual ao alisar da expressão depois da indecisão entre o riso e as lágrimas que ressuma no olhar vazio/cheio dos actores ou dos bonecos que perfuram o espaço do filme para o espaço do espectador, como se procurassem respostas ou nos oferecessem perguntas… e se aquele momento liga o espaço do filme com o espaço do espectador … se nos sentimos atados por um fio único … encontramos a essência que o filme ensaia.

Entrar na falha do mundo, participar na queda da humanidade e ascender à graça, pressupõe a suspensão salvifíca do amor. Mas o amor só se suspende se a mariotenização do mesmo não for exterior às figuras do amor. Só assim o amor será salvo da sua morte. Só assim a interioridade da ligação é mobilizável na imagem do amor suspendendo os amantes ligados por um único fio.
O filme de Kitano revela duas coisas surprendente ( entre muitas outras). Primeiro os mendigos atados mostram que o amor é um fio único sem exterioridade; depois mostra vários amantes, amadores do amor, cruzarem-se nos espaços mobilizáveis pela imagem do amor que o realizador persegue: Imagem sem redenção para o amor que depende das operações e regras dos mariotenistas exteriores às figuras; Imagem de falha, queda e suspensão para os amantes que se mariotenizam um ao outro, pela intensidade da memória (ligada por imagens de dor e de alegria da vida) e do caminho (ligado pela essência da ligação: o fio único), salvos na morte que suspende a imagem do amor.
Neste filme sobre o espaço-fílmico enquanto possibilidade de falha, queda e suspensão, as folhas das árvores, as asas das borboletas, o vermelho das árvores, a aridez da praia e a brancura da neve, são a assinatura de Kitano. A intensidade da ligação única é também a das imagens no devir-filme que parece repor o romantismo de Friedrich na infinita falha que suspende a imagem com a natureza.

terça-feira, julho 29, 2003

Gosto imenso do olhar dos bébés. Porque sei o que olham quando os olhos deles tombam sobre mim. Confesso que tenho repúdio pela lenga-lenga da inocência. Não encontro inocência nos vivos, e a morte é demasiada para me entreter nela em busca da inocência perdida. Não é este o meu furor. Gosto, é verdade que gosto, da maldade que se pressente naqueles seres pequeninos, com olhos desmesurados,cheios de imprints, tábuas de informação, que vão encaixando nos topos do corpo-mente apropriado conforme experimentam a realidade de estarem vivos, fora do receptáculo-mãe. A maldade é o vazio, a liberdade, a possibilidade total da ligação e da mutação. Por isso quando um bébé, nos seus primeiros meses me olha, não é a inocência que o c omanda, é a maldade como acontecimento liso da existência, que põe e dispõe do existente e configura o seu próprio cérebro e o seu próprio corpo, como um verdadeiro programador. O bébé parece nascer com o supra-objectivo de escolher as ferramentas da vida que lhe permitam associar os imprints pré-figurados da gestação, a carga espontânea do dia-a-dia, e as aprendizagens organizadas por estas coisas estranhas, que são os humanos, que se mexem e produzem sons que os rodeiam. Desta forma o olhar sem inocência e cheio de maldade do bébé é o design do mundo antes da queda total na humanidade.
Blogando comigo próprio, poderia inferir que o espaço se pode - pelo menos - apagar e ligar. Para qualquer destas operações existe o peso da decisão prévia e, nesta, o aprofundar o que é próprio do espaço. ( O ensaio é sempre debutante, eis o seu encanto. Arrasta a asa aos assuntos pela primeira vez e enamora-se do seu próprio arrastar). A primeira lição. é a de caracterizar a possibilidade mesma de apagar, ligar, etc. uma vez que implica uma matriz que pretende ascender à perfeição. Mas a negatividade da mesma não pode ser remetida para um plano de menor importância. O imperativo agora, nesta época do triunfo do espaço preciso, é a constituição de uma analítica das operações e decisões que se experimentam no espaço experimentado por certas imagens. As ligações felizes, lembram-me as paixões felizes de Espinoza, e encontro-as nas citações de Godard, ou de Manet. É o espaço que é citado. No caso de Manet, quando cita o espaço de Giorgione, é a pintura como espaço que é citada. A operacionalidade desta experiência mostra mais ou menos rigor no espaço manifesto. Agora, com a digitalização da experiência, a parte do espaço que se oferece aquela possibilidade técnica atinge a perfeição, ao nível das operações e decisões. Ou seja, o mais ou menos rigor desaparece como possibilidade do fazer. Então o que devemos analisar? Como dizia Bachelard, 'Nenhuma precisão é nitidamente definida sem a história da imprecisão primeira'. Então entre Manet e Giorgione, por exemplo, nós podemos observar o balanço e descobrir a imprecisão primeira em Gioirgione? Ou, numa instalação digital sobre o Déjeuner sur l'herbe, seria permitido descobrir a imprecisão primeira em Manet? O futuro, como todos sabemos, é muito extenso e o seu horizonte inalcançável. Resta-nos constatar, com Wittgenstein que 'Sentimos que mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis. os problemas da vida permanecem completamente intactos'. A verdade é que, sendo o espaço um problema da vida, apagá-lo ou ligá-lo, será sempre apagar ou ligar o que pode ser apagado ou ligado, conforme o rigor das operações que ele próprio - espaço - prescreve. Assim o domínio da regra, da operação e decisão é fundamental é fundamental para analisar o próprio do espaço. O que muda não é o rigor, porque em cada momento esta competência apresenta-se performativamente. O que muda é a forma como em cada momento se faz a história da imprecisão primeira.

segunda-feira, julho 28, 2003

Na ordem do mundo abrimos sempre um plano nos seus inúmeros quadrantes. Situámo-nos. mas é verdadeiramente no fazer destes planos que a situação se lê. Um processo - absolutamente político de leitura - estimula a apreensão do que é apagado, porquê e de que forma. Eu explico: por exemplo como é que um certo cinema apaga outro cinema? Como é que o cinema americano apaga o cinema dos outros? e como é que se deixa que tal aconteça? Como se pôde pensar que a efervescência estimulante da técnica, na sua divisão tecnológica mais contaminante não se tornaria uma poderosa arma de destruição das imagens dos outros? E a resistência cabe então ao espaço restante de uma acção subjéctil? (lLembre-se o aproveitamento de Derrida deste passo de bailarino de Artaud) Se o gesto de Sternberg não morre com o gesto de Wells, como não tomar partido nesta guerra de apagamento e silenciamento de um cinema que não está contaminado pelo mercantilismo fóbico do controlo?
A tortura, a sentença de morte, a resistência, eis o que vejo nas imagens que mobilizam o espaço filmicamente.
E eu sou daqueles que acredito na luta, como um guerreiro vigilante na estepe cozida com o céu. O altear do horizonte é apenas poeira ou um sinal de perigo iminente? O altear do horizonte é a sombra do outro, ou a minha sombra?
Todos os dias vou ao jardim de manhã. Ali se recorta a negatividade da cidade. Mas não se trata propriamente de outro espaço, mas de outra imagem que eu concedo ao real. O real é como o boomerang do Pintor Lanhas. (É por isso que tenho uma particular estima pelos Pintores. Eles apontam o caminho certo da vida, como os poetas, de resto.) O Boomerang Lanhas é o movimento imanente de uma imagem que vai e que vem... porque ninguém percorre o caminho dentro das coisas pintadas. Imerso nas imagens-pintura. Lembro-me de um livro que lí - era eu muito pequeno ainda, talvez com 10 anos ( já cá não está ninguém que se possa lembrar). Os idolatras, penso que era este o título do tal livro. E, da narrativa, que esqueci completamente, sobrou apenas uma pintura que proprcionava a passagem entre o mundo real e o mundo das coisas pintadas. E eu recordo como me entretinha a imaginar que entrava na imagem-pintura e ia para o lugar da experiência pintada. Desde aí tive a premonição que não existe retorno nas imagens. Pelo contrário, elas puxam-nos, preparadas para nos engolir inexaurivelmente como uma implosão. O ser perde, nestas condições, o contorno e desmaia-se.
Em que dimensão a tecnologia alterou o desmaio do ser? Posso então perguntar. A resposta é simples, pelo menos a mim parece-me, qualquer de nós pode distinguir um desmaio pintado de um desmaio técnológico. O que individualiza é a qualidade do lugar onde se cai ou se fica suspenso.
O difícil é saber o que fazer ao resto, ao que fica entre a técnica pintada e a técnica tecnológica! Porque desmaiar é fácil. A perda dos sentidos aquando da estetização da emoção humana, já a Simone de Bouvoir tinha descrito como ninguém, às portas do Parténon...

domingo, julho 27, 2003

Há muito tempo que o mar embala o que mais gosto no existente. Há muito tempo que o mar me ensina que a única relação a cuidar é com a vida. Neste corrimão de palavras, relembro o MAR que atlanticamente atravessei. Mar que agora é uma imagem. O mar foi e a imagem ficou. E agora sinto-me irmão do Pintor Turner que, ao mobilizar o espaço atlântico na sua tormenta, ao mobilizar a natureza naturans para um suporte determinado, criava para sempre a possibilidade de me reconhecer nele. E só a imagem do mar nos liga.
Esta mecânica de ligações in-referencais que a pintura predispõe no acervo das suas condições, tem diferentes designs. Com o Pintor Turner tinhamos a entrada num terreno de sublimidade pré-feito por Kant, um século atrás. Com o Pintor Courbet, tinhamos o mundo, na sua finitude e origem, tão triste como os beijos tristes do último Pintor Picasso completariam um século à frente.
Não é verdadeiramente a ligação, que mobiliza o espaço romântico. mas a sublimação do pintado ( daquilo que se experimenta pintando), por isso, só a imagem os liga.

a instalação ternária da alma 

Esta linha de Le Rouge et le noir, de Sthendal - 'ce regard c'est peut être une comedie' - mostra bem como a qualidade do espaço depende mais da instalação mental desse mesmo espaço do que do aparelho da visão. Esta afirmação não pode nem deve, no entanto, escorregar na exagerada rampa de lançamento com que Deleuze/Guattari estabelecem o design do conceito de conceito, caindo numa aberrante predisposição para um solipsismo tardio quando reduzem à mente ( remetendo com imensa habilidade para a força de Leibniz) e reincindindo com ligeireza numa filosofia da alma. Claro que a alma é objecto de uma nova instalação, distanciando-se paulatinamente da alma grega e da cristã. Mas, se calhar, perde assim a sua qualidade maior: a idade de um espaço ternário que desempatava a humanidade no seu gosto pendular pela oscilação.

E num repente floresce esta inocência Assegurando o retorno da liberdade Sob a face regada da terra e o olhar eterno do céu.


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